2.4.07

Terra do Ouro - Enquadramento

Travassos e Sobradelo da Goma são hoje, pelas suas características, "museus vivos" de ourivesaria.
Os seus artífices fizeram destes locais, autênticas "aldeias oficinas".
A arte da filigrana tem em Travassos uma importância especial, pela qualidade das filigranas e pelo grande número de pessoas que se dedicam a esta actividade.
Esta actividade tem vindo a perder importância económica pela falta de competitividade no grande espaço europeu, pela falta de inovação e de introdução de novo design nas peças de ourivesaria, em que, salvo raras excepções, continua a predominar a ourivesaria tradicional.
Experiências realizadas na Póvoa de Lanhoso, com o apoio da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, como foi o caso do Projecto Leveza: reanimar a filigrana, que foi implementado pelo Museu do Ouro de Travassos e a Escola Superior de Artes e Design, deram resultados concretos de significativo impacto.
Esses resultados relevaram-se essencialmente ao nível de uma maior divulgação e afirmação da Póvoa de Lanhoso no contexto da ourivesaria e na activação económica de algumas oficinas que passaram a contar com a colaboração regular de alguns designers, aumentando assim a diversidade e a oferta de objectos de filigrana.
A pequena dimensão da generalidade das oficinas da Póvoa de Lanhoso posicionam-se bem para a produção de pequenas quantidades, a elaboração de protótipos e de modelos exclusivos, aspecto de grande importância quando se trabalha com vários designers, que se posicionam de forma diferenciada no mercado da joalharia.
Salienta-se, também, a grande capacidade e experiência técnica da generalidade dos ourives, o que permite execuções rigorosas e complexas.
Estes aspectos acima referidos, que tornam a Póvoa de Lanhoso numa terra de elevado potencial para a elaboração de peças de design, necessitam no entanto de uma acção estimulante significativa nos meios artísticos e económicos, de forma a criar um mercado mais dinâmico e atrair públicos para a Póvoa de Lanhoso à procura do ouro.
Esta acção pretende-se que tenha um impacto significativo nos vários sectores da ourivesaria, nos fabricantes, nos armazenistas e nos retalhistas, separando os retalhistas que vendem ao público em geral das outras áreas de negócio a montante, que tem objectivos diferenciados.
Para isso pretende-se criar uma Feira do Ouro, em que os comerciantes retalhistas estabelecidos em lojas e nas feiras estejam presentes com a sua oferta de ourivesaria.
Para os fabricantes e designers foi pensado criar um workshop com ourives fabricantes e designers.
Neste evento, os ourives fabricantes mostram a sua oferta em termos de mercadoria e de técnicas de fabrico e os designers apresentam os seus modelos, as suas linhas de concepção.
Cria-se, assim, aqui um espaço de troca de conhecimentos e de contactos entre os expositores e o público profissional ao nível dos ourives dos vários ramos e dos designers.
Este workshop será potenciado pela realização simultânea de um congresso com vários painéis relativos a ourivesaria e à sua promoção.
Este evento atrairá um público diversificado, incluindo um número significativo de designers de escolas do ensino superior, de designers de joalharia e de produto, para além dos profissionais de ourivesaria que neste momento estão particularmente interessados em concorrer num mercado que exige cada vez mais inovação.
O concurso de design de ourivesaria visa aproximar mais os jovens designers da ourivesaria da Póvoa de Lanhoso, dado ser estes os que numa fase inicial, por falta de mercado de trabalho mais qualificado, se podem adaptar às estruturas actualmente existentes no fabrico de ourivesaria, permitindo criar relações profissionais duradouras, quer encomendando futuramente peças nas oficinas, quer vendendo os seus serviços de concepção ou os modelos criados.
O desfile de moda recriará um outro de ourivesaria que existiu anteriormente ligado ao Têxtil D?Ouro; animará um espaço próximo da Feira do Ouro.
Será ao ar livre ou no Theatro Club, conforme as condições atmosféricas.

Manuel de Carvalho e Sousa

Terra do Ouro - Programa

5ª Feira, 24 de Maio

Congresso

9h30 - Sessão de Abertura
Recepção dos conferencistas e entrega de documentação

Painel 1
História e Arqueologia
10h00 - Ana Cristina Sousa | Portugal | ?Colecção Marta Perdigão?
10h30 - Leonor d?Orey | Portugal | ?Filigrana Indo-Portuguesa da Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga?

11h00 - Pausa para café

11h30 - Barbara Armbruster | Alemanha | ?Filigrana e granulação na ourivesaria Viking?
12h00 - Robert Baines | Austrália | ?O ourives da Era Clássica e a resposta do Modernismo?

13h00 - Pausa para almoço

Painel 2
experiências no terreno
15h00 - Ermanno Aparo e Manuel Carvalho e Sousa | Portugal | "O ensino do design como factor de desenvolvimento para a joalharia tradicional portuguesa"
15h30 - Karim Oukid | Kabylia | ?A filigrana na joalharia Berber da Kabylia?
16h00 - Pausa para café
16h30 - Ana Campos | Portugal | ?Leveza: reanimar a filigrana?
17h00 - Carla Castiajo | Portugal | ?Relatos de uma experiência em torno da filigrana?
17h30 - Liliana Guerreiro | Portugal | "Filigrana ontem e hoje"
18h00 - Joana Caldeira | Portugal |

18.30 - Inauguração de exposição de fotografia

6ª Feira, 25 de Maio

10h00 - Visita a oficinas de ourives

Congresso

Painel 3
Artesanato e design
14h30 - David Huycke | Bélgica | ?Granulacão: da joalharia ornamental à ourivesaria escultural?
15h00 - José Carlos Marques | Portugal | ?A confluência de velhas questões na joalharia actual?
15h30 - Ramon Puig Cuyàs | Espanha | A filigrana na joalharia artística da segunda metade do século XX"

16h00 - Pausa para café

16h30 - Silvia Walz | Alemanha
17h00 - Manuel Vilhena | Portugal ?O toque de Midas?

17h30 - Entrega de prémios do concurso de design de ourivesaria

18h00 - Abertura do workshop de ourivesaria

18h30 - Apresentação da imagem corporativa da Associação dos Ourives da Póvoa de Lanhoso

Sábado, 26 de Maio

10h00 - Abertura da Feira do Ouro

Congresso

Painel 4
Artesanato e dinâmicas socais
14h30 - Fernando Gaspar | Portugal | ?Políticas públicas para um desenvolvimento sustentado das artes e ofícios?
15h00 - Graça Ramos | Portugal | ?As produções tradicionais Portuguesas e a construção de novas identidades?
15h30 - Miguel Oliveira | Portugal | ?Qualificar para valorizar?

16h00 - Pausa para café

16h30 - Manuel González ?História do associativismo em Espanha?
17h00 - Carlos Brito | Portugal | ?Internacionalizar o artesanato Português?


21h30 - Desfile de moda


Domingo, 27 de Maio

10h00 - Feira do Ouro

18h00 - Sessões de enceramento dos eventos

19.12.06

Projecto Nuance - apresentação


O Projecto Nuance foi apresentado, no passado dia 14, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) do Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

A iniciativa tem como objectivo o desenvolvimento de projectos no âmbito da filigrana para dinamização económica da ourivesaria e resulta da colaboração entre a ESTG de Viana do Castelo, o Museu do Ouro de Travassos, e a Associação dos Ourives da Póvoa de Lanhoso, em pareceria com a Câmara Municipal de Povoa de Lanhoso.

Um grupo de estudantes do curso de Design do Produto, com o apoio de alguns docentes da ESTG, vai desenvolver projectos no âmbito da joalharia com o objectivo de conduzir a tradição milenar da filigrana para as novas formas contemporâneas por meio da ferramenta do design.

Durante os seis meses seguintes da duração do projecto discentes e professores trabalharão ao lado de ourives da Póvoa de Lanhoso fortalecendo o papel da ESTG de Viana do Castelo, como uma instituição de ensino de Design presente no território, que tem como missão, a formação e a investigação e que pretende ser um factor de incentivo para o desenvolvimento do sector produtivo local.

Na apresentação do projecto estiveram presente os representantes de todas as entidades envolvidas no projecto, com Jorge Silva em representação da Associação dos Ourives da Póvoa de Lanhoso, Manuel Sousa em representação da Museu do Ouro de Travassos, Fátima Moreira, a vereadora da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, Teresa Vasconcelos, vice-Presidente do Conselho Directivo da ESTG, a Coordenadora do Curso de Design do Produto e o responsável da ESTG pela implementação do Projecto Nuance, Ermanno Aparo.

Fotos do evento:

12.7.06

Projecto Nuance

O Museu do Ouro de Travassos está, neste momento, em parceria com
a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, a desenvolver um projecto de design de ourivesaria denominado Projecto Nuance. A proposta é a da abordagem das diferentes nuances (cores, texturas e brilho) do ouro e da prata.
O coordenador do projecto por parte da ESTG é o Arq. Ermanno Aparo, um arquitecto italiano, radicado em Portugal há alguns anos.

19.9.05


Simpósio internacional de Turnov deixa Travassos

Os criadores de joalharia que, durante uma semana, ocuparam espaços de antigas oficinas em Travassos e aí desenvolveram os seus trabalhos (sob o olhar atento de muitos visitantes) despediram-se de Portugal com a inauguração da exposição na ESAD.
Desta segunda passagem do simpósio internacional de Turnov por Portugal (a primeira de sempre por uma aldeia) ficam memórias de experiências partilhadas e cumplicidades que não se esquecem mais.
O conjunto completo de fotos de toda a semana (incluindo inauguração, trabalho nas oficinas e peças já terminadas) está disponível aqui.

13.9.05

Simpósio internacional - work in progress



A fase mais prática do simpósio internacional de Turnov, promovido pelo museu checo com aquele nome, pela ESAD e pelo Museu do Ouro de Travassos está sensivelmente a meio.
O ambiente de trabalho é bastante animado e há já um número considerável de peças originais executadas.
O trabalho - como se esperava - convive de forma muito orgânica com as inúmeras visitas de pessoas interessadas em observar procedimentos e acções.
Uma série de fotos do trabalho desenvolvido neste dia 13 (terça-feira) está disponível aqui.

11.9.05


Inauguração do Simpósio internacional - fotos

A inauguração do Simpósio Internacional itinerante de Turnov teve lugar ontem à tarde, no Museu do Ouro de Travassos.
Uma selecção de fotos ilustrando o evento pode ser encontrada aqui.

10.9.05


Museu do Ouro de Travassos acolhe simpósio internacional

Ourives e joalheiros de sete países vão poder ser vistos a trabalhar em Travassos, no âmbito de uma iniciativa conjunta do Museu do Ouro, da ESAD e do Museu de Turnov (República Checa).

O Museu do Ouro de Travassos (Póvoa de Lanhoso) acolhe, desde sábado (10 de Setembro), o Simpósio Internacional de Joalharia do Museu de Turnov (República Checa). Esta iniciativa, de carácter itinerante, tem por objectivo promover o debate de ideias entre artistas provenientes de diferentes culturas e com experiências de vida e trabalho muito variadas.
Durante uma semana, o espaço-oficina do museu e outros espaços na aldeia serão ocupados pelos artistas e pelas suas criações, estando esta demonstração aberta à curiosidade dos visitantes. ?Nesta semana temos um museu vivo, onde as pessoas podem não só observar quem faz, mas também perceber em detalhe o processo de elaboração de peças de joalharia?, revelou Manuel de Carvalho e Sousa, responsável pela iniciativa.
O simpósio internacional será acompanhado por uma exposição de ourivesaria checa do século XX e o trabalho realizado pelos dez artistas convidados (provenientes de sete países) estará também em exposição, de 17 de Setembro a 14 de Outubro, na Escola Superior de Artes e Design (ESAD) de Matosinhos, parceira do Museu do Ouro de Travassos neste projecto.
Este projecto enquadra-se no esforço desenvolvido pelo Museu do Ouro de Travassos para trazer maior visibilidade ao fabrico artesanal do ouro na aldeia (considerada o berço da filigrana em Portugal) e à sua ligação ao design de novos objectos. Foi, aliás, esse o espírito que presidiu também ao lançamento do "Projecto Leveza - Reinterpretar a Filigrana", lançado em 2004, em conjunto pelo museu e pela ESAD, e que resultou numa exposição itinerante que percorreu o país e que integrou ainda uma visita de Estado do Presidente da República à Bulgária.
A ideia de trazer o simpósio a uma pequena aldeia do Minho foi proposta ao director do Museu de Turnov, Miroslav Cogan, por Manuel Sousa, tendo a resposta sido de imediato positiva. O director do Museu checo sublinhou o carácter aliciante do projecto, adiantando que também para os artistas seria muito interessante trabalhar em espaços centenários. A realização do simpósio em Travassos é possível graças ao apoio do governo da República Checa e à sua embaixada em Lisboa.
O Museu de Turnov é a jóia da cidade com o mesmo nome, a cerca de 90 quilómetros a nordeste da capital checa, Praga, e existe desde 1886, sendo também conhecido como museu do paraíso boémio. As suas vastas e valiosas colecções de jóias asseguraram-lhe, em 2001, o título de Museu Europeu do Ano. A partir de 1993, o museu assumiu como sua uma iniciativa anterior, o simpósio internacional, dando-lhe periodicidade anual e um carácter itinerante.
A uma escala completamente distinta, o Museu do Ouro de Travassos é um projecto familiar, com quatro anos de existência. Nasceu do esforço de um ourives travassense, Francisco de Carvalho e Sousa, para honrar a memória de gerações passadas e do desejo de promover o talento e o trabalho dos ourives locais.

Museu do Ouro acolhe Turnov Travelling Symposium - Participantes

Blanka Sperkova, República Checa
Carla Castiajo, Portugal
Carmén Amador, Espanha
Giedymin Jablonsky, Polónia
Jiri Urban, Républica Checa
Judy McCaig, Escócia
Julie Blyfield, Austrália
Manuel Vilhena, Portugal
Nádia Torres, Portugal
Custódio Gomes, Portugal
Stella Georgiou, Chipre
Theo Smeets, Holanda

Museu do Ouro acolhe Turnov Travelling Symposium - Programa

Museu do Ouro acolhe Turnov Travelling Symposium - Programa

10 de Setembro
15H00: Abertura do Symposium
17H00: Verde de Honra e Inauguração da exposição de Ourivesaria Checa

De 10 a 14 de Outubro: Exposição de Ourivesaria Checa no Museu do Ouro de Travassos

De 12 a 15 de Setembro
10h00/13h00 e 15h00/18h00: Workshop em Travassos (Museu do Ouro ao Vivo)

17 de Setembro
10h00/12h30 e 14h00/16h30: Conferências pelos participantes (ESAD, Matosinhos)
17h00: Inauguração da exposição das peças feitas pelos participantes

De 17 de Setembro a 14 de Outubro: Exposição das peças dos participantes no Symposium (ESAD, Matosinhos)

21.6.04

Presidência da República convida Museu do Ouro

A Presidência da República Portuguesa convidou o Museu do Ouro de Travassos a realizar uma exposição na Bulgária, no Palácio Presidencial em Sófia.
A exposição realiza-se no âmbito da deslocação oficial de Maria José Ritta, para participação na Conferência Internacional "United in Diversity: the National and Cultural Identity in a Globalizing World", que decorrerá de 24 a 26 de Junho.
A exposição de ourivesaria é sobre a tradição e a modernidade, razão pela qual seguiram peças tradicionais representativas da arte da filigrana da Póvoa de Lanhoso e os objectos que foram produzidos no âmbito do projecto "Leveza - Reanimar a Filigrana".
Para o efeito foram produzidos painéis de menor dimensão de teor idêntico aos que integram a exposição patente no Museu do Ouro.
Esta exposição contou com a colaboração da ESAD - Escola Superior de Artes e Design, da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, das oficinas de Boaventura Gomes, Manuel Armando R. Fernandes e Filhos, Ldª e Jorge Silva, Ldª.

10.5.04

Exposição Leveza - inauguração

A exposição resultante do projecto de parceria entre o Museu do Ouro de Travassos e a ESAD foi inaugurada no passado dia 8, sábado, com a presença de mais de 350 visitantes.
A iniciativa mereceu a atenção de vários orgãos de comunicação social, locais e nacionais, e teve direito a um destaque de duas páginas na edição 'Local' do diário Público de domingo, dia 9.
Trascrevem-se, a seguir, os textos que integram esse trabalho, da autoria de Abel Coentrão e Hugo Delgado.

Designers e Ourives Revolucionam Filigrana da Póvoa de Lanhoso
Por ABEL COENTRÃO
Domingo, 09 de Maio de 2004

Há uma revolução em curso nas vetustas oficinas de joalharia da aldeia de Travassos, na Póvoa de Lanhoso. Nas mesmas bancas onde se produzem os olhos de perdiz (conhecidas como contas de viana), os corações ou os brincos à camponesa que acompanham os trajes das mulheres do Minho, jovens designers substituiram os velhos modelos registados há gerações em livros de fumo por novas propostas, contemporâneas, minimais, que os dedos experimentados de alguns ourives transformaram em peças de filigrana de uma leveza visual que aponta para uma estética completamente nova, e para um publico bem mais urbano. Um trabalho realizado graças a uma parceria entre o curso de Artes/Joalharia da Escola superior de Artes e Design (ESAD) de Matosinhos e o Museu do Ouro de Travassos, que desde ontem, e até 30 de Agosto, expõe as peças resultantes do projecto de muitos sentidos e apenas um nome: Leveza.
Leveza, neste caso, tem mais que vem com a sensação visual, do que propriamente com o peso das peças. Como explica Manuel Sousa, um dos membros da família que fundou e gere o Museu do Ouro de Travassos (ver caixa), até se julga que, de facto, a filigrana terá sido a forma encontrada pelos antigos para fazer peças de ostentação mesmo com pouco ouro, mas a verdade é que o exagero de entrelaçados dá a muitas jóias um aspecto barroco, pesado, que os mentores do "Leveza" colocaram de fora da iniciativa que envolveu uma trintena de designers, entre actuais e ex-alunos da ESAD, e convidados portugueses e estrangeiros. Coube a estes últimos mostrar como a filigrana que os portugueses associam a meia dúzia de motivos e a outros tantos adereços, pode ter as mais variadas aplicações.
Se é possível que os alfinetes do catalão Ramón Puig mais se pareçam a homenagens filigranadas aos ambientes cromáticos de um Miró, e que ganhem com isso, porque não aplicar o mesmo conceito, mas em Portugal? Dito e feito. Depois de uma visita a Travassos por parte de uma comitiva de estudantes, no início do ano lectivo, o Museu do Ouro tomou em mãos o papel de facilitador do contacto entre a escola e os artesãos, tradicionalmente avessos a contactos que possam "revelar" os seus segredos. Dos seis que se mostraram receptivos, só três acabaram por aderir por completo ao projecto que fez os designers entrar pelas oficinas dentro. Hoje, Custódio Gomes e os irmãos Joaquim e Guilherme Rodrigues da Silva tem o seu nome na assinatura de peças que rompem por completo com a imagem da filigrana que herdaram dos pais, e que estes haviam já herdado dos avós.
Joana Caldeira por exemplo, transformou as conhecidas argolas de requife que encontrou na banca de Custódio Gomes em alianças, a que chamou "Entrançadas". A peça até já está no mercado e "está a ter sucesso. Podem juntar-se várias, por exemplo com o nome de cada um dos filhos", conta o ourives, visivelmente entusiasmado com as novas estéticas que esta parceria lhe deu a conhecer, e esperançado nos efeitos económicos da mudança. Aliás, este era, e, outro dos objectivos do "Leveza". "Penso que isto é uma semente e criou uma nova dinâmica em Travassos. E era importante trazer a inovação e fazer a ponte entre designers e ourives", afirma Manuel Sousa, que vê cumprido mais um dos objectivos estratégicos do Museu do Ouro: a evitalização económica desta actividade que mantém abertas cerca de 40 oficinas na freguesia.
"A versatilidade é uma boa forma de responder às necessidades actuais. A inovação é grande forma de dar a volta aos problemas", argumenta Manuel Sousa". Ao lado, Custódio mostra um colar com globo armado, de prata, com um rodilhão em filigrana solto lá dentro. Mas há mais. Pins com desenhos de crianças em filigranas, alfinetes, brincos, e medalhas que mais parecem apetíveis "bolachas belgas" filigranadas. Cionjugação com silicone, plástico, aço, seda, para, e até com o esmalte, usado normalmente dentro da filigrana, e que viu aqui invertido o seu papél, num trabalho de reabilitação do esmalte fotográfico que as mulheres de outras gerações levavam ao peito, com as imagens de filhos e maridos. Tudo exposto numa sala, ao lado de outra onde torques castrejos ou um diadema romano mostram quão antiga é a técnica da filigrana nestas paragens.
"Eu penso que isto é um ponto de partida. Daqui para a frente devemos continuar a trabalhar em parceria, diz a coordenadora do curso de artes/Joalharia da ESAD, Ana Campos, defensora da integração do design nas técnicas e recursos tradicionais. A docente lembra como a ideia inicial se desenvolveu ao ritmo de "uma bola de neve", atraindo o interesse do Centro Português de Design e do Centro Regional de Artes Tradicionais do Porto,que vai apoiar a itenerância da exposição, com paragens garantidas em vários pontos do país (Ver caixa) e, confirmou-se ainda esta semana, em Paris, na sede da Unesco. Dado este passo, o limite agora é apenas o da imaginação dos criativos, e o da vontade e capacidade técnica dos ourives. "Muitos dos que não entraram agora no projecto já vieram falar comigo, perguntar como é que é. Isto mexe", garante Manuel Sousa.


Um Museu com Olhos no Futuro
Domingo, 09 de Maio de 2004

Fruto da vontade do artesão Francisco Carvalho e Sousa, que durante cinco décadas coleccionou um espólio de um valor histórico incalculável, o Museu do Ouro de Travassos abriu há três anos, revelando ao público mais ou menos familiarizado com a filigrana a evolução desta arte ao longo de milhares de anos. Um percurso assinalado com peças antigas, como o belíssimo diadema da Idade do Cobre, e outras mais recentes, mas também elas inspiradas numa tradição que se perde nos séculos. Mas este espaço desenvolvido pela família Sousa não é apenas o repositório de memórias e da identidade desta freguesia da Póvoa de Lanhoso. Desde que o projecto foi ganhando corpo que os seus mentores desejavam vê-lo a contribuir para o desenvolvimento da actividade, o que na perspectiva de Manuel Sousa só poderia passar pela incorporação de inovação, não tanto nos métodos de produção, mas sobretudo no design, já que até aqui os artesão limitavam-se praticamente a seguir os livros de fumo com que os seus avós registavam as peças que trabalhavam. E daí que a chegada dos alunos da ESAD a Travassos, e a iniciativa que as duas instituições abraçaram, esteja a ser levada com todo o entusiasmo de quem vê nele o ponto de encontro entre uma tradição, e seu futuro. Há ourives que já não dispensam a companhia dos jovens designers. E outros que se alhearam do "Leveza", procuram agora


Autarquia Desafia Ourives a Juntar Esforços na Defesa da Arte
Por ABEL COENTRÃO
Domingo, 09 de Maio de 2004

Elói, um mestre de ourivesaria da Gália que haveria de ser bispo, e santo elevado ao estatuto de padroeiro dos ourives andou pela Europa nos idos do século VII. Mas centenas de anos antes já os romanos exploravam as riquezas minerais do Norte de Portugal. A famosa Geira, ou Via XVIII, transportava o ouro do coração do Minho para o coração do Império, deixando por cá um jeito de trabalhar o precioso metal que ainda hoje perdura, através de uma técnica que requer delicadeza, minúcia e tempo, a filigrana.
São muitos os dados históricos que atestam uma especial concentração de artesãos em zonas hoje integradas em várias freguesias do concelho da Póvoa de Lanhoso: Fontarcada, Oliveira, Sobradelo da Goma e Travassos. Uma presença que hoje praticamente se resume às duas últimas localidades, com vinte e quarenta oficinas activas, respectivamente. Segundo Maria José de Carvalho e Sousa, filha de Francisco Sousa, o impulsionador do projecto do Museu do Ouro de Travassos, as referências escritas a esta actividade no concelho datam de pelo menos 1730. E até a actual pedra de armas da Póvoa de Lanhoso, datada de 1940, integra motivos de filigrana, o que atesta a importância que o próprio poder local foi dando a esta actividade.
Nos últimos anos, a autarquia voltou a olhar para a arte de trabalhar o ouro como um factor de identidade e promoção do concelho conhecido por ter sido berço de Maria da fonte, a tal ponto de lhe ter aposto um novo cognome, o de Capital da Filigrana. A actividade está lá, com empresas de maiores dimensões a operar para o mercado nacional e internacional e outras, familiares, subsistindo nas pequenas oficinas, mas continua a haver no discurso dos responsáveis autárquicos um certo travo de insatisfação. Para o presidente da Câmara, Lúcio Pinto, há muito mais a fazer pela preservação, desenvolvimento e publicitação da ourivesaria e da filigrana que se faz por estas terras.
Defensor da certificação de produto, associada a uma marca local, o autarca abre as portas ao apoio da edilidade em tudo o que possa ser feito para o conseguir, mas exige que do outro lado os ourives recuem no tradicional individualismo que os leva a olhar com desconfiança ou desinteresse para iniciativas como o Projecto Leveza - cujo catálogo é patrocinado pelo município - que para Pinto vai fazer muito pela promoção da ideia de "Capital da Filigrana" através da exposição itinerante ontem inaugurada. "Espero que com isto outros objectivos mais ambiciosos possam ser alcançados", desabafou, antes de desafiar todos os envolvidos nesta actividade para uma reunião onde possam ser definidas estratégias de valorização da economia e da cultura associadas ao ouro.


"Antigamente Tínhamos Medo de Mostrar a Arte a Outros"
Domingo, 09 de Maio de 2004
Custódio Gomes, 42 anos, ourives
Custódio Gomes conhece a banca de ourives desde que os seus olhos a conseguiram alcançar. E o pai insistiu para que os seus dedos experimentassem a textura do ouro desde cedo. Teria uns oito anos quando começou a desempenhar algumas tarefas. A mesma idade da filha, Inês, que exprime um interesse pela arte que este ourives gostaria de ver transformado em vocação. Seria a garantia de que o jeito herdado do pai, que o herdará já do avô, saltasse para mais uma geração, já que na família, entre os mais novos ninguém assumiu interesse por preservar o mester. Para já, ele e o irmão, Hermenegildo, aguentam a banca que o velho Boaventura ainda frequenta "quando lhe apetece". Como outros, habituou-se a trabalhar em família, seguindo os livros de fumo com peças já realizadas pelo avô, mantendo em vigor a máxima o segredo é a alma do negócio. "Antigamente tínhamos medo de mostrar a arte aos outros", conta, como que a justificar as dúvidas iniciais com que também ele encarou a proposta do Leveza. O certo é que depois das primeiras visitas de alunos da ESAD, Custódio, que tomou-lhe o gosto e acabou por trabalhar com uma dezena deles, tendo desenvolvido, a partir do projecto, uma relação profissional com a designer Joana Caldeira, com quem passou a encontrar-se pelo menos duas vezes por semana, para discutir novas peças, que já estão no circuito comercial.

"A Filigrana Está Um Bocado Estagnada"
Domingo, 09 de Maio de 2004
Carla Castiajo, 29 anos, designer
Terminou o curso de Joalharia da ESAD já com um prémio de uma famosa galeria Holandesa, o Marzee 2003. Estagiou em Roma, prepara-se para ver o seu trabalho exposto em Massachusetts, numa colectiva da Mobilia Gallery, e até pretende ir atrás de um dos seus designers favoritos, o holandês Ruudt Peters, num mestrado em que este participará, como docente, na Konstfack, o Instituto de Artes, Ofícios e Design de Estocolmo, na Suécia. Mas para já, Carla Castiajo, uma portuense de 29 anos, prepara-se para passar uns tempos na aldeia de Travassos, numa casa cedida pelos irmãos Joaquim e Guilherme Rodrigues da Silva, com os quais trabalhou ao longo dos últimos meses no âmbito do "Leveza". Uma experiência que vai repetir, durante pelo menos um mês, período durante o qual frequentará, de sol a sol, a oficina tradicional em que aquela família trabalha o ouro. Objectivo: tomar contacto com as técnicas, de modo a poder "reinventar" a filigrana, algo que até já começou a fazer. "A filigrana está um bocado estagnada", nota esta jovem designer e artista (ou algo entre a fronteira das duas, como admite), que encarou este projecto de reanimação da filigrana como "um tiro no escuro", mas que agora que lhe tomou o gosto não pretende sair da aldeia-museu sem uma ideia concreta das potencialidades técnicas desta arte, ou não fossem estas, nalgumas vezes os freios, noutras os aceleradores, da imaginação.